Cultural

1984 e o Gramsci Irmão

 60 anos depois, o lançamento do livro de George Orwell
ainda demonstra atualidade

Quando foi lançado, o livro 1984, o inglês George Orwell podia não ter a pretensão de prever um futuro próximo ou mesmo distante. Era a crítica pura e simples do momento em que fora escrito – no caso o ano de 1948 – pelo temor dos regimes totalitários que terminavam e se iniciavam naquele período. Ambientado no ano fictício de 1984, o livro descreve um continente em que o totalitarismo chegou ao seu auge.

“Não haverá lealdade, a não ser lealdade ao partido. Não haverá amor, a não ser amor ao Grande Irmão. Não haverá riso, apenas o riso de triunfo sobre um inimigo derrotado”, diz o partidário. Assim vive o personagem principal Winston Smith, soma de Winston Churchil com o sobrenome mais comum da Inglaterra. No entanto, 60 anos depois de seu lançamento, 1984 ainda causa assombro pela comparação com os nossos dias, muitas vezes reduzidas às conseqüências do avanço tecnológico e aos casos de invasão de privacidade. Mas a doutrinação e articulação que busca a conversão para o autoritarismo, são encontradas na quase totalidade da literatura didática da educação brasileira e latino americana, desde o primário ao ensino superior. Por isso, quando comparamos o livro com a nossa atualidade é necessário não cairmos na mera utilização das câmeras escondidas e observação cotidiana do povo. Ainda que este aspecto seja inegavelmente importante, não corresponde ao real avanço daquela ideologia experimentado já há 40 anos no continente americano. Somente observando a origem e implantação do sistema mesmo a que Orwell se refere e critica, será possível identificar suas semelhanças no mundo em que vivemos.

A terra onde se desenrola a vida de Winston Smith chama-se Megabloco da Oceania, uma possível antevisão dos atuais blocos econômicos que se formaram pelo mundo ou simples alusão ao bloco soviético. A descrição deste mundo de controle total do cidadão pelo Estado, na perspectiva de Winston, através do bloco de anotações que consegue escondidamente registrar o que pensa, expõe o desejo individual de liberdade ante a opressão de um ente imaginário, o Grande Irmão, onipresente em teletelas com um rosto sisudo que guarda a tudo e a todos. Esse ditador controla não só as atividades pessoais e o trabalho dos cidadãos, mas suas mentes. A opressão em que vivem os habitantes desse mundo bizarro é a caricatura do totalitarismo stalinista de um Estado militarizado e presente em todas as decisões do povo, mas que evoluiu para uma força além do coletivo passando a atuar no próprio indivíduo.

Mesmo declaradamente de esquerda, Orwell desnudou o grande desejo por trás das ideologias totalitárias, sem o qual não pode haver a tão sonha igualdade total. A escravidão das mentes tornou-se imprescindível para o domínio do corpo e da alma do povo e a revolução que transformou o mundo que Winston conhecia trouxe consigo o fim da dúvida, da alegria, da beleza, do amor e da vida. “O poder está em rasgar mentes humanas em pedaços e colocá-las juntas de volta em novas formas escolhidas por você mesmo”, disseram a Winston. Há uma cumplicidade do povo, entretanto, com o que foi chamado por Contrato Social, por pensadores como Thomas Hobbes, no que dizia respeito á teoria absolutista, mas de um modo levado ao extremo, onde o povo deposita o poder nas mãos daquele que o vai salvar da barbárie.

Winston é uma espécie de editor de jornais. Trabalha em sua sala pequena, onde o olhar do Grande Irmão o observa atento. Modifica as informações que não convêm com os interesses do Partido e troca dados e números que identificam falhas ou perdas e transforma em ganhos, boas notícias.

Recentemente o Brasil ficou sabendo que sua posição econômica no mundo melhorou graças a uma mudança no cálculo do Produto Interno Bruto. O que para os especialistas representou somente uma alteração nas formas de calcular o PIB, para os brasileiros menos esclarecidos a situação foi muito clara: o atual governo elevou o país a uma posição próxima aos países desenvolvidos. Semelhante técnica de comunicação foi utilizada tanto na Rússia de Stalin quanto na Alemanha de Hitler. As propagandas no governo do Führer alemão traziam números reais, mas amparados a motivos que levassem a uma falsa noção de melhoria. Também na Rússia o poder das reformas econômicas de 1932 que levaram o país ao declínio mais tarde revelavam-se ao povo como grandes avanços, inclusive com abertura de mercado externo, segundo o filósofo e jornalista Olavo de Carvalho. “Qualquer um que vivesse naquela época acompanhando declarações do governo russo acreditaria estar passando por uma revolução capitalista”.

A migração das ideologias totalitárias do Leste Europeu para todo o Ocidente e o progressivo avanço em direção á hegemonia nas áreas culturais e educacionais, é hoje algo inegável. No Brasil, a filosofia de Antônio Gramsci chegou à década de 60 no meio universitário e dali alastrou-se para quase todo ramo do conhecimento, segundo os estudos do escritor Sérgio Augusto de Avellar Coutinho, estudioso do tema no Brasil.

Gramsci foi fundador do partido comunista italiano e preso por Mussolini, considerado por este como uma “inteligência perigosa”. Tão perigosa que foi no cárcere que escreveu todo o seu manual revolucionário, baseado nas idéias de Marx, mas com importantes diferenças. Como o escritor de O Capital, Gramsci também defendia a revolução e a destruição das bases do capitalismo, mas ao invés de vir com a revolução do proletariado amparado pela violência, ele pregava que a revolução devia ser feita pelos intelectuais progressivamente. O objetivo era a destruição das bases morais e do Estado de Direito que sustentavam o capitalismo e com isso modificar progressivamente o senso comum e ganhar a Hegemonia que, para o partidário italiano se caracterizava pela presença total da ideologia do partido através do consenso mantido pelos intelectuais orgânicos.

Gramsci hoje é uma das mais importantes referências educacionais do Brasil. Basta uma pequena busca pelas bibliotecas de pedagogia para encontrar os manuais escritos por ele no cárcere com regras psicológicas de adulteração do senso comum e do comportamento infanto-juvenil. O filosofo italiano propõe a criação do que ele chama de Bloco Histórico que seria nada mais do que uma evolução forçada para algo hegemônico e consensual, imune a qualquer escolha ou divergência possível, terminando com o fim das classes sociais e a ditadura do proletariado.

A transformação do comportamento é um ponto importante na filosofia de Gramsci, uma vez que é a partir dela que vai se criar a hegemonia do Partido, como descreve Carvalho em A Nova Era e a Revolução Cultural, de Capra a Gramsci. “O número dos adeptos conscientes e declarados do gramscismo é pequeno, mas isto não impede que ele seja dominante. O gramscismo não é um partido político, que necessite de militantes inscritos e eleitores fiéis. É um conjunto de atitudes mentais, que pode estar presente em quem jamais ouviu falar de Antonio Gramsci, e que coloca o indivíduo numa posição tal perante o mundo que ele passa a colaborar com a estratégia gramsciana mesmo sem ter disto a menor consciência”.

Nas palavras de Gramsci, “O Partido tem que se apoderar da educação, da cultura e dos meios de comunicação social, para desde aí apoderar-se do Poder Político e com ele dominar a sociedade civil”. No que diz respeito à dominação da mídia, o Brasil está em franco avanço: em 21 de novembro de 1999, o caderno da Folha de São Paulo, Mais! foi dedicado a Antônio Gramsci e expôs um trecho de seu livro mais conhecido, sem jamais afirmar que se tratava de um adepto do totalitarismo.

Ao invés de matar milhares de pessoas na revolução, como Marx e Stalin, Gramsci – assim como Lênin – indica que a Hegemonia do Partido não pode se restringir a escravizar o corpo, mas também as mentes. Winston Smith, o protagonista perfeito do intelectual inorgânico – delimitação dos estudiosos que não se encaixam com o projeto gramsciano de dominação – percebe o tipo de sociedade em que vive e rebela-se contra a tirania do pensamento. Sem que percebam, ele anota tudo em um pequeno caderno que mantém escondido, com a ajuda de um amigo que o aluga um “canto cego” de um apartamento, onde não pode ser observado pelas teletelas.

Restringir a comparação do período em que vivemos com a obra de George Orwell, amparado somente na invasão de privacidade que os meios de comunicação empreendem – característica comum em períodos de avanço tecnológico e portanto transitória – seria deixar à margem ou até mesmo ocultar o verdadeiro avanço do Grande Irmão em nossas mentes desde a o término do Regime Militar. Assim como na URSS, em Cuba e na Venezuela, no Megabloco de 1984 o governo é estabelecido pela vontade popular, mediante a aprovação da revolução. Isso só ocorre o modelo precedente apresenta uma crise de insegurança e é necessário um braço forte para restaurar a normalidade. É fácil entender como é fácil fazer com que o povo legitime tal dominação total das liberdades. A perda dos direitos individuais pode ser trocada pela liberação de deveres cívicos decorrente do sentimento de incapacidade de escolher seus representantes.

Na Alemanha do Terceiro Reich, a estratégia foi aproveitar-se da crise em que estava mergulhada toda a sociedade civil para justificar um poder centralizador que fortaleceu imediatamente o Estado com um ditador carismático. Hugo Chavez mantém um programa de TV onde assina ao vivo investimentos para os pobres sob aplausos de uma platéia fiel, enquanto gasta milhões com armamento para vigiar seu próprio povo e conspirar para a criação de um novo bloco latino, um plano audacioso que, graças ao olho do Gramsci Irmão vem ganhando simpatia no mundo intelectual. A última trincheira para a contrução do megabloco está, dessa forma, depositada no Brasil do Terceiro Mandato.

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