Cultura | Heróis mais adultos

· Fredric Wertham, Marvel
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Mudança nos quadrinhos rompe
com padrões impostos nos anos 50

Uma super-heroína fracassada que tenta ser detetive particular e enfrenta problemas com álcool e complexos de inferioridade, um veterano de uma organização governamental que descobre o vazio da sua vida depois do fim da Guerra Fria, um cruel herói de aluguel apaixonado por uma prostituta.

Estes são três dos muitos personagens do universo proposto pela Marvel Comics a partir do ano passado. Depois do rompimento com o selo Comic Code Authority, uma espécie de código de ética dos quadrinhos americanos, a Marvel entrou de cabeça nas Graphic Novels ou Mature Readers, os quadrinhos adultos. Trata-se de uma linha especializada nesse gênero e que vai contar com alguns famosos personagens da Marvel tradicional.

A heroína fracassada poderia ser a Mulher-Aranha, mas sua história é bem diferente da que os leitores estão acostumados. O veterano da Guerra Fria é, sem dúvida, o coronel caolho Nick Fury, famoso coadjuvante das histórias dos X-Men. O herói de aluguel vem a ser o misterioso Luke Cage em uma faceta bem mais obscura do que a habitual. “Eles terão um pouco de super-heróis, mas estarão fora da cronologia”, destaca Joe Quesada, editor-chefe da Marvel, em recente entrevista. Os lançamentos já começaram causando polêmica por incluírem personagens do Universo Marvel em situações que envolvem sexo, alcoolismo e dramas psicológicos.

A idéia de criar um selo específico para o público maduro surgiu quando o Comic Code pediu à Marvel que fizesse modificações antes do lançamento de um de seus títulos. Segundo as autoridades do órgão, a revista continha cenas violentas e temáticas sexuais subentendidas. A Marvel, por sua vez, manteve a publicação sem alterações e anunciou que considera a censura do selo inapropriada para o consumidor e o mercado do século XXI.

O padrão americano

Diferente do mercado europeu, que possui uma grande quantidade de títulos e sem qualquer indicação de classificação etária, nos EUA, todas as revistas se utilizam do Comic Code há muitos anos. A criação deste selo remete aos anos de 1950 quando uma verdadeira caça às bruxas perseguiu toda a indústria do entretenimento na procura de tendências comunistas ou anti-americanas. A perseguição, encabeçada pelo senador Joseph McCarthy, destruiu a carreira de diretores de cinema, teatro, atores, escritores, etc. Para fugir da censura imposta pelo congresso, o mercado de quadrinhos decidiu criar a sua própria agência reguladora.

Mas talvez o grande inspirador dos selos de controle de conteúdo para os gibis tenha sido o médico alemão Fredric Wertham. Seu livro mais famoso, Sedução dos Inocentes, condenava a forte influência das HQs na mente dos jovens da época. Revistas de vários gêneros foram queimadas em praça pública na campanha deflagrada pela moralização da cultura americana. Os quadrinhos de horror foram os que mais sofreram nesse período, com a extinção de grandes editoras em expansão na época.

Como maior incentivador da criação de regras específicas para as publicações, Wertham perseguiu, tanto artistas gráficos, como escritores de quadrinhos e obrigou a indústria a criar o próprio código. Os seus estudos sobre saúde mental e comportamento criminoso atestavam que, tanto a violência como o erotismo era socialmente prejudicial aos leitores mais novos. Para ele, os quadrinhos influenciavam negativamente as crianças, desde a criminalidade até o homossexualismo, segundo Wertham.

Mais de 50 anos depois, as regras de autorização tiveram poucas alterações e, cada vez mais, jovens vêem no quadrinho adulto algo mais consistente e criativo. Editoras como a Marvel, questionam a necessidade de autorizações para a publicação de suas histórias e avançam buscando maior liberdade editorial.

As regras impostas pelos mecanismos de censura daquela época, influência do pensamento de Wertham, persistem no que se refere ao conteúdo erótico. Pouco se reclama da violência no cinema e nos quadrinhos infantis dos EUA, país onde adolescentes entram em escolas armados e cometem crimes hediondos. Não há seriado infantil atualmente, animação ou HQ, que não tenha fortes doses de crueldade. É comum ver capas de gibis com violência explícita nas mãos de crianças, enquanto títulos juvenis são censurados por conterem temática sexual subentendida.

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