A incerteza: o novo paradigma

· Uncategorized
Autores

O culto da incerteza dominou o mundo intelectual a partir dos “acontecimentos sociais das décadas de 60 e 70” a ponto de transformá-lo na verdadeira religião oficial do ocidente. Hoje, a geração seduzida pelos pensadores “incertezistas” ganhou status de uma grande e revolucionária raça que libertou o homem das amarras cruéis do paradigma da certeza total.

Diga-se de passagem, a certeza destes pressupostos incertos – dentre eles a Teoria do Caos, que proclama que o caos na verdade é ordeiro à sua maneira – trouxe tanta agonia e angústia às mentes intelectuais outrora crentes nas antigas certezas, que atualmente não é mais possível encontrar vestígio da própria idéia de verdade. Mentes desiludidas pela certeza da dúvida abandonaram por completo as reflexões essencialmente por preferir não pensar em mais nada e com isso não dar trabalho aos “verdadeiros” teóricos que se debruçavam sobre suas deliciosas dúvidas, tornando-as ainda mais impenetráveis à medida que iam sendo refutadas pelo velho regime. Refutações que, de modo geral, tornaram-se fáceis a partir da idéia da simples negação total. Eis a única certeza possível, a da negação do real. Realidade afinal tornou-se uma construção e em alguns casos, uma usurpação da imaginação alheia criada com o intuito de manter o poder ou a exploração de quem quer que fosse. A História passou a ser a forma que os detentores do poder encontraram para manter a dominação sobre o mais fraco e, por conseqüência, oprimido das castas sociais menos favorecidas, vítimas da História e vencidas por ela.

A elite do pensamento ficou tão viciada na idéia do caos ordeiro e dono da sábia geometria caótica da construção do real, que hoje pode-se dizer que se criou um credo. E de fato os sacerdotes que professam essa crença de que a única certeza é a dúvida, ficaram sendo os únicos que detém o direito da análise do que entendemos por realidade. Fica assim atribuída a eles toda e qualquer elucidação acerca dos valores mais adequados a serem cultuados, bem como a toda a conduta social politicamente aceita e coerente na busca do bem comum ou, para usar de expressão moderna, do coletivo.

Nunca, porém, a idéia dos detentores da verdade esteve tão firme e arraigada no senso comum. Proclamando a dúvida, tornou-se a certeza um privilégio de poucos. Um direito dado àqueles que estudaram para obtê-la transformando-se, com isso, nos formadores de opinião.

O relativismo que norteou esse obscurecimento dos princípios, porém, tinha uma função importante no ensino. Ele servia para que a pessoa, destituída das formas ligadas ao senso-comum de entendimento, pudesse ter a mais aproximada noção dos conceitos como os foram pensados pelos criadores destes. Logo, ele deveria ser seguido de uma explanação honesta e mais fiel possível da forma como foi contada a história de um determinado conceito. Mas o que acontece quando se retira os conceitos, invalida suas possibilidades, e nada põe no lugar, deixando um vazio abissal de ventos raivosos e violentos, aproximando a vítima da bestialidade animal, do irracionalismo, da crueza mineral, da ausência de discernimento? Homens se fazem por seu conteúdo imagético, racional da experiência prática aliada ao estudo dos fundamentos, da teoria adquirida pelas gerações antecessoras. Sem isso, pode ser reduzido a um monstro incivilizado.

Lavagem cerebral consiste em retirar-se todo o repertório de imagens e símbolos que a vítima possui. É fazê-la negar todos os ensinamentos passados a ela anteriormente. O relativismo e a cultura da dúvida certa, tem esse papel caídos em mãos erradas. Produzem os piores resultados sociais possíveis. Em grande escala, causaram os mais terríveis prejuízos à humanidade. Em pequena escala, pode ser muito importante para fomentar a criatividade, sendo necessário o desprendimento de paradigmas. É claro que neste caso não deveria ser preciso dizer que tal substituição deva ter caráter seletivo, preferindo o nada ao pior. Mas não é assim que acontece nos círculos do conhecimento do Brasil e da América Latina nos idos do século XXI.

Deslizamentos de sentido, interpretações e aparências são, para os sofistas da década de 60, a mais pura e absoluta noção do que seja a “verdade possível”. Não há, dessa forma, meios de compreender um enunciado sem abstraí-lo na sua forma mais transcendental, ao pondo de afirmar que cada ser humano possui a sua verdade própria e dela depende todo o seu fracasso ou sucesso, sejam estes o que forem no mundo labiríntico circular da incerteza.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: